Acerca de mim

sábado, 24 de julho de 2010

Ontem à noite

Todas as pessoas que preciso de ver, todos os sentidos que acabei de não ter, todo o amor que sinto a crescer, todas as passagens que saltei, todos os dias que chorei, toda a revolta mal explicada, toda a angústia que não passou de segundos, todos os beijos que precisava de ter, todas as quedas que precisava de levantar, todos os murros que devia beber e todos os tempos que deixaram de ser…

As músicas que correr por querer, os dias que passam devagar e todas as fraquezas sem ar. Estou aqui, continuo aqui para mim e para poderes continuar a passar por cima. As paredes do teu pensamento não passam disso. Concentra-te! Vais perceber que este som que ouves não passa de sofrimento molhado à espera de ser salvo. Tudo o que tens de ouvir é nojento, todo o pó que tens nos olhos e na consciência acabam por te salvar. Vives para morrer, eu morro todos os dias para viver. Viver para a luz e para o ruído. Vou abraçar-me e dizer a mim mesma que está tudo bem, vou unir-me contra a união e pensar em ti. Ou chorar sangue e beber suor, todos os dias enquanto estiver por aqui.

Todas as palavras que acabei de escrever sabem a miséria porque está escuro aqui. Vou quebrar barreiras que já foram quebradas há anos e vou fazer tudo o que eu nasci para ser, vou engolir terra e cuspir manias. Vou andando pelo passeio para não queimar, cheira a pequeno orgulho da parte do céu. Eu resolvo, eu vou continuar a pensar em ti. Tudo começa realmente quando te tornas moralmente correcto, esquece essa parte sensacional e pára para eu entrar dentro de ti. As pessoas estão aqui e ali, sempre a fazerem sentido, continuam a proteger coisas que nem sabem que existem e a viver de falsidades bem construídas. Já chorei por ter tanta razão quanto a tua, já corri para o nada e encontrei-te a ti.

O céu, as estrelas, o chão, o sentimento de culpa, a escuridão e o fogo.

[Junho 2010]

Um Mundo

Hoje regressei à casa, na urgência do senhorio que me dá três meses para a ‘desfazer’. Num rasgar de emoções, passei a tarde a andar por ali. Por onde costumava ser o meu mundo, onde eu olhava com outros olhos tudo o que me rodeava e tudo o que eu tinha. Era simplesmente um bom miúdo que esperava pela realidade da vida, ia esperando naquela casa. Num desfazer de recordações voltei aquela grande casa e não consegui ficar lá sem me lembrar de tudo o que vivi na minha infância com tanta gente e com tantas quebras de pensamento, sentei-me no chão da sala grande que nunca se abria. Não estava insípida e escura como costumava estar em tempos, tinha imensa saudade no rosto. Peguei numa das fotografias rasgadas que estava em cima de uma mesa castanha e, assustado, tentei parar de sentir aquele desconforto e aquela sensação de culpa que sempre tive, mas não consegui. Sempre me senti extremamente sozinho. Penso todos os dias na minha tia e no valor que aquela casa tinha para ela, sinto que a abandonei e infelizmente esse sentimento não está longe da realidade. Nessa fotografia velha estava sentado no jardim com a minha tia, que esboçava um sorriso carinhoso enquanto eu lhe tocava no rosto. Um rosto sempre velho e cheio de amor, com as mais profundas rugas de saudade. Levantei-me do chão da sala e continuei a arrumar tudo, sem querer parti uma das louças preferidas da minha tia e ainda me senti pior. Tentei apanhar tudo mas preferi agarrar-me as almofadas que ainda tinham o cheiro dela, acabando por ficar ali dois dias. Percebi que ali naquele sítio fiz os melhores textos alguma vez feitos na minha vida de escritor, onde cada papel valia milhões de tristezas e cada quadro daquela sala, milhões de saudades.

Lembro-me como se fosse hoje quando achei que estava na hora de sair daquela casa, onde todos os armários e jarras estavam cheios de revolta e desconforto de um simples miúdo que nunca foi o que quis, mas sim o que queriam que fosse. Deixei aquela casa como se deixa um olhar perdido e nunca mais voltei atrás, nem mesmo quando soube que a minha tia falecera. Agora tenho de voltar aquela casa todos os dias, todos os dias me cai a lembrança de tempos passados. Isso torna-me arrependido por ter voltado lá passado tantos anos? Só estou arranjar uma saída, a mais segura para mim. Vou arrumando as coisas devagar, com cuidado e compaixão pelas memórias daquele sitio. A única coisa que não encontro são os lençóis de linho que a minha tia guardava no roupeiro, continuo a procura enquanto ganho força psicológica para guardar tudo o que é daquela casa na minha casa, casa esta que nunca tem visitas, só espelhos nas paredes para me olharem com uma seriedade porque eles sabem sempre tudo o que faço de mal. Espelhos iguais ao da casa grande. É este o pânico de estar vivo.

[Junho 2010]

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Medo do Passado

Tudo o que gostava de saber sobre isso é tudo o que não quero saber, tenho medo da tua pronuncia. Tenho medo de ouvir um sim maior e de te perder por lá. Saber que o teu coração é meu deixa-me feliz. Eu sei que não posso pedir tudo da vida, mas se algum dia me derem a oportunidade de pedir um desejo eu sei exactamente o que pedir. Vou dizer baixinho para nunca mais ninguém se lembrar e vou finalmente poder sentir tudo o que não sinto. Desde sempre, desde o inicio. Seria possível? Que sonho magnifico, talvez um pouco prezado. Só gostava que ela não te tivesse encontrado. Tudo passa tão devagar enquanto eu toco piano e penso em ti antes de mim. O teu passado dá cabo de mim, como posso eu ser indiferente? Daqui a milhares de anos vou lembrar-me que isto não era importante, vou rir-me da situação e abraçar-te com toda a força. Porque te amo mais que tudo. É difícil dizer o que sinto enquanto durmo, mas eu sei que continuo com medo. O meu medo chora por mais, chora por tentar encontrar um caminho por mais pequeno que seja. Nem que seja uma saída, onde ele se possa descobrir e mandar para trás esse frio amaldiçoado que tenho no corpo
[Maio 2010]

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Janela de Cima

Quando cheguei, a primeira coisa que fiz foi abrir a janela para te ver. Infelizmente o vento já te tinha levado, mas eu continuei a olhar pela janela e percebi a emoção lenta e linear e decidi que devia arranjar palavras para te explicar. Mata-me por esta sensação de impureza, mas volta para mim ainda hoje. Sem fazer sentido continuo a olhar e a perceber que foste só tu que me fizeste olhar por aquela janela e pensar mais alto. É tudo morto e vivo, quente e frio. Vejo pelo laranja do sol e pelo cinzento do céu que deveria dar mais valor a mim mesmo. Quando cheguei aqui na esperança de te ver ainda a passar na rua, olhei para as flores e elas estavam mais mortas que a minha vontade de viver. Secalhar é por isso que a paisagem que vejo está a preto e branco.

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