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sábado, 24 de julho de 2010

Um Mundo

Hoje regressei à casa, na urgência do senhorio que me dá três meses para a ‘desfazer’. Num rasgar de emoções, passei a tarde a andar por ali. Por onde costumava ser o meu mundo, onde eu olhava com outros olhos tudo o que me rodeava e tudo o que eu tinha. Era simplesmente um bom miúdo que esperava pela realidade da vida, ia esperando naquela casa. Num desfazer de recordações voltei aquela grande casa e não consegui ficar lá sem me lembrar de tudo o que vivi na minha infância com tanta gente e com tantas quebras de pensamento, sentei-me no chão da sala grande que nunca se abria. Não estava insípida e escura como costumava estar em tempos, tinha imensa saudade no rosto. Peguei numa das fotografias rasgadas que estava em cima de uma mesa castanha e, assustado, tentei parar de sentir aquele desconforto e aquela sensação de culpa que sempre tive, mas não consegui. Sempre me senti extremamente sozinho. Penso todos os dias na minha tia e no valor que aquela casa tinha para ela, sinto que a abandonei e infelizmente esse sentimento não está longe da realidade. Nessa fotografia velha estava sentado no jardim com a minha tia, que esboçava um sorriso carinhoso enquanto eu lhe tocava no rosto. Um rosto sempre velho e cheio de amor, com as mais profundas rugas de saudade. Levantei-me do chão da sala e continuei a arrumar tudo, sem querer parti uma das louças preferidas da minha tia e ainda me senti pior. Tentei apanhar tudo mas preferi agarrar-me as almofadas que ainda tinham o cheiro dela, acabando por ficar ali dois dias. Percebi que ali naquele sítio fiz os melhores textos alguma vez feitos na minha vida de escritor, onde cada papel valia milhões de tristezas e cada quadro daquela sala, milhões de saudades.

Lembro-me como se fosse hoje quando achei que estava na hora de sair daquela casa, onde todos os armários e jarras estavam cheios de revolta e desconforto de um simples miúdo que nunca foi o que quis, mas sim o que queriam que fosse. Deixei aquela casa como se deixa um olhar perdido e nunca mais voltei atrás, nem mesmo quando soube que a minha tia falecera. Agora tenho de voltar aquela casa todos os dias, todos os dias me cai a lembrança de tempos passados. Isso torna-me arrependido por ter voltado lá passado tantos anos? Só estou arranjar uma saída, a mais segura para mim. Vou arrumando as coisas devagar, com cuidado e compaixão pelas memórias daquele sitio. A única coisa que não encontro são os lençóis de linho que a minha tia guardava no roupeiro, continuo a procura enquanto ganho força psicológica para guardar tudo o que é daquela casa na minha casa, casa esta que nunca tem visitas, só espelhos nas paredes para me olharem com uma seriedade porque eles sabem sempre tudo o que faço de mal. Espelhos iguais ao da casa grande. É este o pânico de estar vivo.

[Junho 2010]

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